Sigo acumulando paisagens
Como quem tenta preencher um silêncio
Há sal no ar
Há fogo no fim do dia
Há um céu que muda de cor
Como se quisesse me convencer a ficar
Guardo um instante nosso
Imóvel no tempo lado a lado
Diante de algo infinito
Que nenhum de nós conseguiu explicar
Viajo por caminhos longos e sombreados
Deixo os passos se perderem em extensões sem fim
Subo até onde a cidade quase toca o céu
E, lá de cima, tudo parece pequeno
Menos aquilo que sinto
Você permanece distante
Envolta em dias frios
Habitante de um mundo que não alcanço
E ainda assim tão presente
Que atravessa qualquer distância
Ir embora nunca foi ausência inteira
Existe sempre um fio invisível puxando de volta
E se um dia você chamar, não haverá demora
Voltarei com o inverno nas mãos
Apenas para encontrar abrigo no calor da tua pele
Imagino você em silêncio
Presa a palavras de um livro qualquer
Enquanto eu, daqui, reescrevo você dentro de mim
E tudo o que era lembrança se transforma em certeza
O tempo não diminui, ele amplia
E aquilo que sinto cresce
Sem pedir permissão
Sem conhecer distância




