13 março 2026

Incompreensão

“Há verdades tão delicadas que preferem o silêncio 
a disputar lugar entre os ruídos do mundo.” ©Lucia

Caminhos me chamam, mas guardam silêncio
Como entradas seladas por mãos invisíveis
Há um anseio quieto em mim
Um passo que sempre hesita diante do mistério

Quando tento tocar o afeto com a voz
Os ouvidos do mundo se fecham cansados
Como se ternura fosse um peso
Que poucos desejam carregar

Talvez eu nunca pertença
Ao ofício dos que tecem versos
Ainda assim, no que digo
Transborda aquilo que sou por inteiro

Dentro de cada sílaba
Escorre um retrato secreto
Um espelho delicado
Onde minha essência respira

Se algum dia apagarem os registros
Do que escrevi ou confessei ao vento
Que também se dissolvam as lembranças
Presas no ar das antigas conversas

Então me soltem, suave e sem ruído
Como quem abre a mão para um pássaro cansado
Partirei leve, quase ausência
Misturando-me ao grande silêncio do universo

E, no repouso sem nome
Talvez eu encontre descanso
Não como perda
Mas como um suspiro que finalmente se aquieta

09 março 2026

Antes De Partir

Antes que o caminho me leve
Para além do que nossos olhos alcançam
Deixo o coração voltar um instante
Às paisagens que vivemos juntos
Ali ainda respiram
Risos leves, dias difíceis, batalhas silenciosas
Que transformaram fraqueza em coragem
Não existe arrependimento nesse retorno
Até os tropeços tiveram propósito
Como pedras que, sem perceber
Desenharam a trilha que nos trouxe até aqui
Quando nossos olhares se encontram agora
Há um universo inteiro guardado neles
Frases que nunca aprenderam a sair
Sentimentos grandes demais para caber em voz
Há um vento distante chamando meu nome
Como se dentro do peito
Existissem asas esperando o momento de abrir
Dizer adeus nunca é simples
Quando a alma ainda deseja permanecer
Mas alguns caminhos pedem coragem
Mesmo quando o coração pede pausa
Então o abraço se alonga, tentando guardar no silêncio
Tudo aquilo que o tempo não permitirá repetir
Porque certas presenças não desaparecem com a distância
Elas encontram abrigo mais fundo
Onde memória e afeto caminham lado a lado
E antes que o horizonte me leve
Uma verdade precisa permanecer clara
A luz que encontrei em você continuará acesa em mim
Não importa quão longe o destino me leve
Esse brilho seguirá comigo, iluminando cada passo


06 março 2026

Quando A Alma Cria Raiz

Há um amanhecer que nasce por dentro
Mesmo quando o horizonte parece incerto
Das ruínas surgiram entendimentos
O que partiu não virou corrente
Virou sabedoria quieta...
Puxo o ar devagar
E sigo pela própria jornada
Mais inteira que na véspera
Uma serenidade germina
No lugar onde antes
Tempestades faziam morada
A trilha se ilumina pouco a pouco
Movimento após movimento
Sem urgência, sem pavor
Os fardos se soltam dos ombros
E o espírito encontra equilíbrio
O que parecia abismo
Revela-se abertura
Um espaço amplo para existir de outro jeito
Sou feita de recomeços
De bravura que não faz alarde
De uma claridade que insiste em permanecer
E continuo…
Não porque a vida mudou de peso
Mas porque minha alma ganhou raiz

02 março 2026

Onde O Mundo Não Nos Alcança

Um amor sereno e resistente atravessa tempestades e 

permanece eterno enquanto vivido.

Entre silêncios que abraçam instantes
Dois caminhos se encontram sem pressa
Há calor mesmo quando o mundo gela
Há abrigo no toque que resiste

Lá fora, o céu desaba em fúria
Aqui dentro, pulsa algo sereno
Conflitos sopram como tempestades antigas
Mas não arrancam raízes profundas

O tempo corre, indomável, invisível
Escapa pelos dedos distraídos
Ainda assim, algo insiste em permanecer
Um laço que aprende a durar

Na penumbra, nasce um desejo suave
Erguido em olhares que dizem tudo
Enquanto pontos distantes brilham
Antes de sumirem no infinito

E quando tudo virar lembrança distante
Restará o que não se mede
Aquilo que foi vivido por inteiro
Sem medo de ser eterno enquanto existiu


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23 fevereiro 2026

Permanência

Entre ruas que não reconhecem meu nome
Sigo acumulando paisagens
Como quem tenta preencher um silêncio
Há sal no ar
Há fogo no fim do dia
Há um céu que muda de cor
Como se quisesse me convencer a ficar
Guardo um instante nosso
Imóvel no tempo lado a lado
Diante de algo infinito
Que nenhum de nós conseguiu explicar
Viajo por caminhos longos e sombreados
Deixo os passos se perderem em extensões sem fim
Subo até onde a cidade quase toca o céu
E, lá de cima, tudo parece pequeno
Menos aquilo que sinto
Você permanece distante
Envolta em dias frios
Habitante de um mundo que não alcanço
E ainda assim tão presente
Que atravessa qualquer distância
Ir embora nunca foi ausência inteira
Existe sempre um fio invisível puxando de volta
E se um dia você chamar, não haverá demora
Voltarei com o inverno nas mãos
Apenas para encontrar abrigo no calor da tua pele
Imagino você em silêncio
Presa a palavras de um livro qualquer
Enquanto eu, daqui, reescrevo você dentro de mim
E tudo o que era lembrança se transforma em certeza
O tempo não diminui, ele amplia
E aquilo que sinto cresce
Sem pedir permissão
Sem conhecer distância