23 fevereiro 2026

Permanência

Entre ruas que não reconhecem meu nome
Sigo acumulando paisagens
Como quem tenta preencher um silêncio
Há sal no ar
Há fogo no fim do dia
Há um céu que muda de cor
Como se quisesse me convencer a ficar
Guardo um instante nosso
Imóvel no tempo lado a lado
Diante de algo infinito
Que nenhum de nós conseguiu explicar
Viajo por caminhos longos e sombreados
Deixo os passos se perderem em extensões sem fim
Subo até onde a cidade quase toca o céu
E, lá de cima, tudo parece pequeno
Menos aquilo que sinto
Você permanece distante
Envolta em dias frios
Habitante de um mundo que não alcanço
E ainda assim tão presente
Que atravessa qualquer distância
Ir embora nunca foi ausência inteira
Existe sempre um fio invisível puxando de volta
E se um dia você chamar, não haverá demora
Voltarei com o inverno nas mãos
Apenas para encontrar abrigo no calor da tua pele
Imagino você em silêncio
Presa a palavras de um livro qualquer
Enquanto eu, daqui, reescrevo você dentro de mim
E tudo o que era lembrança se transforma em certeza
O tempo não diminui, ele amplia
E aquilo que sinto cresce
Sem pedir permissão
Sem conhecer distância

16 fevereiro 2026

Caminho Vazio


Guardo lembranças como quem guarda sonhos
Mesmo sabendo que já estão partidos
Caminho só, mas levo teus traços comigo
Na prisão doce e amarga da memória
Sigo em frente, mesmo sem teu abrigo
Porque esquecer você, nunca foi escolha
E no silêncio das horas vazias
Converso com aquilo que fomos
Como se o tempo ainda pudesse nos ouvir
Há caminhos que sigo apenas por terem guardado teus passos
E paisagens que ainda repetem o som da tua voz
Aprendi a viver com essa ausência que não se despede
Feito onda que recua, mas sempre volta ao mesmo lugar
E assim continuo inteira e incompleta
Fazendo da saudade um modo de seguir respirando

Over You - Gary Puckett & The Union Gap

O que fica no coração, não se esquece, em algum momento você vai lembrar. Uma dor sincera de quem tenta seguir em frente, mas ainda está preso às lembranças.

09 fevereiro 2026

Maré Interna

Fico de pé no quarto silencioso
Onde o tempo esqueceu um lado do colchão
Há noites em que o corpo deita
Mas a mente continua andando em círculos

Não foi só a despedida
Foi o que ficou vibrando depois
Erros têm gosto
E alguns voltam pela garganta

Carrego escolhas como pedras molhadas
Pesadas demais para fingir que não existem
O passado não chama ele sussurra

E mesmo sem porto
Meus pensamentos ainda nadam
Na direção de um nome
Que o peito não aprendeu a soltar

Esse sentimento é como tentar respirar dentro da memória: nada visível te prende, mas algo invisível pesa. Não é só a ausência de alguém é a dificuldade de aceitar quem você se tornou depois do adeus.

05 fevereiro 2026

Entre Palavras E Máscaras

Gosto de conhecer pessoas. As palavras, quando verdadeiras, têm um jeito especial de alcançar a alma. Quando são escritas com cuidado e sinceridade, tocam meu coração, não pelo brilho, mas pela intenção. O que me afasta é quando, mais adiante, fica claro que tudo não passava de interesse disfarçado.

Diz-se que não é por visibilidade, mas nem sempre isso convence. Talvez eu esteja errada nas minhas leituras, mas até hoje esse erro não aconteceu. Por isso sigo cautelosa, com um pé atrás. Com o tempo, as máscaras costumam cair, e quando caem, apenas confirmam aquilo que, lá no fundo, já era pressentido.

Ninguém conhece verdadeiramente a vida do outro. Cada pessoa carrega suas próprias lutas, seus silêncios e suas histórias. Não se mede o caminho alheio pelo jeito que escolhemos viver o nosso.

As palavras, quando verdadeiras
Não precisam chamar atenção
Elas não brilham para convencer
Iluminam porque são honestas

Quando escritas com cuidado e intenção
Alcançam a alma com suavidade
Tocam o coração não pelo efeito
Mas pela verdade que carregam

O que me afasta é o encanto ensaiado
Quando mais adiante fica claro
Que havia interesse por trás do gesto
Aprendi a seguir com cautela
Porque quem é verdadeiro não tem pressa

Com o tempo, as máscaras caem
E quando caem, não chocam
Apenas confirmam aquilo
Que o silêncio já havia dito

02 fevereiro 2026

PRESENÇA

Se minhas mãos soubessem falar em som
Nasceria um sopro sincero
Feito de tudo aquilo que guardo em silêncio
Ele viajaria leve, sem pressa
Até encontrar abrigo em você
Como quem encontra casa sem procurar
Talvez eu precise de muitos amanheceres
Para lapidar esse gesto invisível
Ajustar cada detalhe do sentir
Até que ele vista você com exatidão
Não por insistência, mas por cuidado
Todos os dias eu retorno a esse intento
Moldando sentimentos como quem esculpe o tempo
Na esperança de que um dia você perceba
O peso e a doçura do que desperta em mim
E quando esse encontro acontecer
Meu corpo aprenderá movimentos novos
Criando uma história inteira sem palavras
Apenas presença
Se houver espaço no seu íntimo
Você perceberá algo raro
Não um som, mas um reconhecimento
Isso será o que ofereço a você


Amar, às vezes, é isso: Segurar firme o que treme Sem saber se é dança ou abismo