Não sei exatamente quando passou. Talvez não tenha passado. Talvez eu só tenha aprendido a carregar certas coisas sem apertá-las tanto contra o peito.
Ainda lembro-me de algumas noites em que eu queria desaparecer por algumas horas, só para não precisar pensar. Lembro-me de ter acordado no dia seguinte e feito às coisas de sempre, como se nada tivesse acontecido. É estranho o quanto a gente consegue continuar mesmo quando, por dentro, parece que alguma coisa parou.
Hoje eu olho para mim e reconheço algumas marcas. Não todas. Algumas eu ainda não sei o que significam outras eu prefiro não explicar. Mas já não tenho vontade de esconder cada pedaço difícil da história. Foi tudo parte do caminho, mesmo aquilo que eu gostaria de ter vivido de outro jeito.
E talvez seja isso que mais me surpreendo, eu não me tornei alguém sem medo, nem alguém que tem resposta para tudo. Fiquei apenas. Fiquei quando era mais fácil ir embora de mim. Fiquei quando não havia certeza nenhuma. Fiquei, principalmente, quando ninguém estava vendo.
Hoje existe uma espécie de paz que eu não conhecia antes. Não é felicidade o tempo todo. É mais quieta. É poder olhar para a própria história sem precisar mudar os acontecimentos para conseguir gostar de quem sobreviveu a eles.
Eu sobrevivi. E, de algum modo que ainda estou aprendendo a entender, isso me trouxe até aqui.
Talvez seja por isso que, quando penso em tudo o que vivi, não sinto apenas tristeza. Há também uma ternura. Por mim. Pela mulher que fui. Pela que quase desisti de ser. E por essa que, apesar de tudo, continua aqui.
Não saí de tudo ilesa. Nem precisava.
Fiquei...
Resistir foi o que pude fazer algumas vezes. Outras, foi simplesmente continuar.
E talvez seja suficiente.
